Por que morar no Sítio dos Pintos? Saiba mais sobre o bairro

Foto 1: Vista panorâmica do Bairro (Luciana Dantas/ANE)
Localizado na RPA 03, que é composta por 29 bairros, esse Bairro da Zona Norte do Recife possui cerca de 7.200 moradores, com população masculina de 3.495 (48,03%) habitantes e feminina de 3.781 (51,97%) habitantes. A maioria da população encontra-se na faixa etária de 25 a 29 anos (49,01%). A cor predominante é Parda (51,33%) e possui taxa de alfabetização da população com 10 anos ou mais de 91,5%.
Com 2.132 domicílios o Bairro possui uma média de 3,4 moradores por domicílio com uma proporção 44,59%. de mulheres responsáveis pelo domicílio e valor do rendimento nominal médio mensal dos domicílios de R$1.841,34.

Com uma área de 152,55 hectares, 46,46% destes são de área construída e os outros 42,55% ainda são de vegetação (arbórea - 27,80% e arbustiva – 14,75%). O restante se divide em áreas de cultivo, solo exposto, hidrografia e área alagável.

O Recife possui 25 unidades de conservação da natureza, e Sítio dos Pintos é uma delas, criado como ZEPA 2 (Zona Especial de Proteção Ambiental) pela Lei Municipal nº 16.176/96 e convertido em UCN (Unidade de Conservação da Natureza) pelo Decreto nº23.818 de 23 de julho de 2008. Em 2014 a Lei 18.014 fez nova alteração, quando criou o atual Sistema Municipal de Unidades Protegidas (SMUP).
A área onde está localizado este pequeno e desconhecido bairro recifense corresponde à antiga localidade de “Macacos” que desfrutava, inclusive, de uma estação da Estrada de Ferro do Trem de Limoeiro. O bairro se limita com o município de Camaragibe, Caxangá, e Dois Irmãos. Na primeira metade do século passado, Sítio dos Pintos era um matagal com alguns casebres e estreitos caminhos. Os sucessivos desmatamentos e invasões reduziram a vegetação e aumentaram a população local. Também é um bairro que talvez se enquadre melhor como área rural, tamanha a presença da vegetação, estradinhas estreitas e terrenos sem construções. (CAVALCANTI, 2012 , p. 346).
O bairro de Sítio dos Pintos cresceu sem nenhum planejamento e é formado por dez comunidades e três condomínios. Segundo os moradores, havia cinco locais onde eles costumavam tomar banho de riacho e três cacimbas (ainda em uso pelos moradores). Relataram que no bairro há outras preciosidades: onze olhos d’água e seis riachos, sendo que dois são afluentes do Riacho Sítio dos Pintos. Embora todos estejam parcialmente degradados existe a possibilidade de recuperação. Ainda sobrevivem, também, riachos como o “Sítio dos Pintos”, o “Três Paus”, o “Camaragibe” e o da “Fortuna”. Expuseram algumas de suas aspirações em relação ao bairro, como: campos de futebol, praças, áreas de lazer, esgoto e segurança; itens necessários para o bem-estar de qualquer comunidade.
Até os anos 60 do século passado o bairro era um sítio, cujo dono não permitia edificações na área, apenas algumas casas de taipa com telhados de palha eram tolerados.
A paisagem chega a ser bucólica em alguns momentos. Pequenos bosques, árvores, barulhinhos de pássaros e outros pequenos animais; galinhas, vacas e cabras passando às margens da rua. Há quem afirme também que a água que brota fácil na região é mineral. Um ambiente reforçado pelo nome de algumas vias, como a Rua do Afeto. Este isolamento campal tem atraído, inclusive, famílias abastadas que erguem casarões para fugir do estresse recifense. No entanto, a sensação de vida no campo é entrecortada pelos aglomerados de casebres e pequenos comércios populares (principalmente à beira da estrada).(BAIRROS, 2013, P. 49).
O Bairro Sítio dos Pintos é um exemplo da desigualdade social no Recife. Ali, condomínios luxuosos convivem lado a lado com as moradias simples da população de baixa renda, concentrada nas partes altas, porque as baixas normalmente são invadidas pelas águas em tempos de chuva. Uma coisa, no entanto, une as famílias abastadas e as que sobrevivem com até um salário mínimo: a queixa quanto à violência no bairro.
Sítio dos Pintos possui duas escolas públicas, a Escola Municipal Mundo Esperança, que atende crianças a partir dos 04 anos de idade, com turmas que vão desde a Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental e a Escola Municipal Sociólogo Gilberto Freyre que atende no bairro com turmas do Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano), Fundamental II (6º ao 9º ano) e à noite possui turmas de Ensino para Jovens e adultos (EJA). Não existe creche na comunidade, e esta é uma antiga batalha dos moradores. Há um Posto de Saúde da Família com atendimento médico e odontológico, uma sede do CRAS, uma Igreja Católica cuja padroeira é Nossa Senhora das Graças, há várias Igrejas Evangélicas, uma clínica de reabilitação para usuários de drogas, uma unidade do Vale do Amanhecer, templo espiritualista cristão que atrai centenas de pessoas semanalmente em busca de amparo espiritual e da água especial servida no local. Quanto ao transporte urbano, no bairro há dois terminais de ônibus com três linhas: Sítio do Pintos/Dois Irmãos; Sítio dos Pintos/IMIP (Joana Bezerra) e, Rio Doce/Dois Irmãos, mas ainda há uma outra linha de ônibus que atende os moradores do Córrego da Fortuna que é a linha Casa Amarela/Cruz Cabugá.
Quanto ao saneamento básico, o bairro se encontra em uma situação bem precária, não existe esgoto.
O comércio local é composto por algumas pequenos pontos de vendas nas próprias residências, farmácias, armazéns de construção, frigorífico, mercearias, fiteiros, padaria e oficinas.
Quanto aos bares e restaurantes, no Bairro atualmente funciona um bem conhecido por servir comidas típicas como a galinha à cabidela e o guisado de guiné – O Bar do Pajaraca, há também o Conterrâneo Bar, O Risadinha e o Sítio Bar, todos eles frequentados pelos moradores do local e por pessoas vindas de outras regiões.
Para melhor entender o cotidiano do bairro e conhecer sua história oral foram entrevistados alguns antigos moradores do bairro: João Marroquim de Souza (Seu Joca), José Alberto Pereira da Silva (Betinho) e Tereza Pereira da Silva (Dona Tereza).
Segundo o entrevistado “Seu Joca”, que escutava histórias contadas pelo seu avô, João José Marroquim, morador do lugar desde 1922, este contava para o neto que o lugar, na época, pertencia ao bairro de Dois Irmãos, mas em 1988 tornou-se um bairro oficial do Recife.
A sede da Associação de Moradores do Bairro foi fundada pelos antigos moradores Maria Jacinto e José Jacinto. Atualmente existe também no Bairro um Grupo de Mulheres com sede própria, cuja coordenadora é Dona Tereza.
Dona Tereza nos conta que há muito tempo atrás, a principal forma de lazer dos moradores era banhar-se nas águas cristalinas oriundas de fontes naturais que eram lugares apropriados para a diversão em família, como o “Riacho Três Paus”, (que recebeu esse nome por causa da existência de três grandes coqueiros que havia neste terreno). Com o passar dos anos, porém, estas fontes vêm sofrendo com a poluição e com frequentadores, pessoas envolvidas com o tráfico de drogas se apropriaram do lugar afastando os que iam até o local apenas à procura de um momento de diversão, “já que não existem no bairro outras formas de lazer, como: uma praça ou um parquinho para as crianças” (informação verbal).
Segundo o entrevistado Betinho (Presidente da Comissão Pró Arraial de Sítio dos Pintos – COMPASP) no que diz respeito à parte cultural, há uma quadrilha junina, a Mistura de Cor, que participa de festivais dentro do estado de Pernambuco, e, durante o período junino, é montado pela Associação do bairro um arraial para receber apresentações culturais. Havia uma agremiação carnavalesca que fazia a alegria do bairro há muitos carnavais passados: o “Bloco Segura o Pinto”, que, estando extinta, é relembrada apenas em fotos.
O bairro contava, ainda de acordo com Betinho, com a honrosa presença do artista José Joaquim de Santana Filho, conhecido como “Mestre Duda”. Esse artista produzia belas esculturas talhadas em madeira e se tornou muito famoso, seu trabalho foi reconhecido e muitas pessoas vinham ao bairro para comprar as suas obras de arte. Até os dias de hoje a viúva e a mãe dele moram na mesma casa onde ele viveu.

Foto 2: Mestre Duda (Luciana Dantas/ANE).

É importante ressaltar que, apesar de todas as dificuldades encontradas pelos moradores do Bairro Sítio dos Pintos, existe ali o espírito de luta manifestada na postura de alguns de seus representantes e as pessoas que ali vivem não perderam a alegria e a esperança de dias melhores através dos estudos e com a concretização de projetos que atualmente estão parados como a creche e a Academia da cidade, por exemplo.

De maneira geral pode-se dizer que o Bairro de Sítio dos Pintos apesar de possuir um clima agradável por conta do verde de sua paisagem bucólica necessita de maior atenção por parte das autoridades competentes para inserir os moradores num contexto social mais favorável já que existe enorme potencial territorial e humano.
 
 
Curiosidades:
1. Cercado por muitas árvores e trilhas, é forte a crença em seres imaginários. E o mais conhecido entre os moradores é um ser denominado por eles de “Comadre Fulozinha”, uma menina de longos cabelos negros que vive na mata, que adora fazer tranças nos rabos e nas crinas dos cavalos, que dá surra naqueles que cortam árvores e não respeitam a natureza, diz-se que ela possui um forte assobio e tem o dom de aparecer do nada, adora receber oferendas das pessoas, tais como: frutas e alimentos cozidos. É uma protetora das matas e dos animais da floresta.
2. Conta-se que toda a área do Bairro formava um único sítio pertencente a uma família cujo sobrenome era “Pinto”, dessa forma, todos os moradores locais e dos arredores referiam-se ao local como o “sítio dos Pintos”, daí surgiu o nome do bairro: Sítio dos Pintos.
3. O Bairro Sítio dos Pintos possui algumas comunidades que não se reconhecem como pertencentes à ele, como o Córrego da Fortuna e  o Sítio São Braz, cujos moradores se identificam como pertencentes ao Bairro de Dois Irmãos.

Recife, 28 de novembro de 2017.

FONTES CONSULTADAS:
BAIRROS do Recife. Causos, histórias e manifestações culturais. Revista Algo Mais, a. 3, n. 3, 2013. Disponível em: <goo.gl/pgd2LA>. Acesso em: 13 nov. 2017.
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. 5 ed. rev. e ampl. Camaragibe: CCS Gráfica e editora, 2012.
IBGE. Censo Demográfico 2010. Disponível em: <https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm>. Acesso em: 13 nov. 2017.
LINS, Letícia. Sítio dos Pintos conta a própria história. Disponível em: < http://oxerecife.com.br/2017/11/20/sitio-dos-pintos-conta-propria-historia/>. Acesso em: 20 nov. 2017.
RECIFE. Prefeitura Municipal. Serviços para o cidadão. Sítio dos Pintos. Disponível em: <http://www2.recife.pe.gov.br/serviço/sitio-dos-pintos>. Acesso em 16 nov. 2017.
  
COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: SILVA, Gisele Pereira da; VERARDI, Cláudia Albuquerque. Sítio dos Pintos (bairro, Recife). Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br//>. Acesso em: dia mês ano. Ex. 6.ago.2009.

Fonte: Fundaj